Postagem indicada a quem já leu O Menino do Pijama Listrado, pois contém muitos spoilers e nenhum resumo do livro.
O Menino do Pijama Listrado é o quarto livro de John Boyne, um cara irlandês que hoje soma sete livros de ficção publicados. O livro citado foi lançado em 2006 (a primeira impressão em português é de 2007), e em 2008 já era filme (odeio isso).
Apesar da loucura por pôr as quase 200 páginas nas telas com tanta rapidez, não senti uma "roteirização", como ocorreu n'O Código Da Vinci. O livro tem um equilíbrio legal de pensamentos e falas, e traz muitas descrições de locais, pessoas e coisas, o que é um ótimo suporte para adaptar um roteiro, mas não força isso. No caso do Dan Brown, só faltava formatar o arquivo. Dizem que todos os livros do Brown são assim, mas só li o que tem o Tom Hanks (não dá pra imaginar outra coisa quando já se sabe quem vai interpretar o magrão principal no filme).
O Fúria os mandou para Haja-vista
Foi muito fofa a ideia de usar termos simplificados para ilustrar a (falta de) compreensão de Bruno, o personagem principal, que teria apenas nove anos. Além do bem-sucedido efeito infantil, é uma forma de dar leveza à leitura, evitando palavras que provocam arrepios em qualquer um que estudou história no ensino médio. A propósito, os termos são utilizados dessa forma mesmo quando não fazem parte de falas ou pensamentos de Bruno, sendo tratados assim também na narração do livro e nas falas de outros personagens. Há poucas menções a essas palavras como são realmente, e quando acontece, elas não são citadas, pois Bruno não as entende dessa forma.
“O nome é Haja-Vista”, protestou ele.“Não é”, disse ela, pronunciando corretamente o nome do campo para ele.Bruno franziu o semblante e deu de ombros ao mesmo tempo. “Pois foi o que eu disse”, disse ele.
O mesmo recurso é utilizado para expressões de baixo-calão, que ficam a cargo da dedução do leitor.
“Ei, você!”, gritou ele, acrescentando, então, uma palavra que Bruno não entende. “Venha cá, seu...” Ele disse a tal palavra novamente, e alguma coisa no tom rude com que a entoava fez Bruno se sentir envergonhado e desviar os olhos, não querendo tomar parte no que estava acontecendo.
Também é usado o artifício da repetição como marca da infantilidade. Alguns termos são usados com frequência e sempre grafados em title case, em um comportamento de título mesmo. É o caso de Proibido Entrar em Todos os Momentos Sem Exceção, adjetivo atribuído ao escritório do pai de Bruno.

Fluência e paciência
A leitura é leve e flui tranquilamente, na verdade, até prende o leitor ao livro (foi assim que me atrasei para almoços e idas à praia, por exemplo).
No entanto, há quem diga que o livro parece chato, pois realmente demora a chegar no enredo esperado. Apesar do texto de orelha dizer que é melhor não dar dicas sobre o livro porque "isso poderia prejudicar sua leitura, e talvez seja melhor realizá-la sem que você saiba nada sobre a trama", o nome do livro é o suficiente. Pijamas Listrados só vão dar as caras lá pela página 50, e o Menino então vai aparecer apenas na metade do livro, aproximadamente. Talvez a ansiedade faça com que as pessoas percam a paciência.
Menos trágico que o esperado
O final do livro é previsível, mas não por isso deixa de ser forte. Desde o primeiro encontro de Bruno e Shmuel, em que é citado que "o arame levantava facilmente e um menino no tamanho de Bruno conseguiria passar sem dificuldade", pode-se imaginar que a travessia vai acontecer. Em seguida, provavelmente, viria a tragédia.
Pode ser crueldade da minha parte, mas eu estava esperando que o próprio pai matasse ou mandasse matar Bruno, antes de poder reconhecê-lo. Teria sido mais interessante o impacto imediato, acredito, em vez da dúvida do desaparecimento. Admito, entretanto, que a hipótese da câmara de gás é bem mais plausível, pois os meninos foram arrastados no meio de uma multidão, justificando a confusão entre Bruno e uma criança prisioneira.

De uma forma ou de outra, a ideia transmitida funciona e comove, não apenas no final, mas durante todo o livro. A incompreensão sobre o abandono dos lares e das diferenças entre eles, as perguntas sem resposta, a ignorância sobre os porquês das ações que a criança presencia.
O mais forte talvez seja a inocência e justiça confrontadas com o condicionamento. Bruno não sabe porque é o contrário dos judeus, mas acredita que os alemães são superiores. Bruno acredita quando Shmuel diz que os soldados são maus, mas duvida que seu pai - mesmo sendo o comandante - possa querer o mal para aquelas pessoas.
Agora, resta ver como ficou tudo isso no suporte audiovisual, apesar de o trailer já te revelado que roubaram um ano da idade das crianças. ¬¬
2 comments:
Ainda não tive a oportunidade de assistir o filme, mas o livro é, de fato, muito bom. O final é mesmo previsível, mas ainda sim impactante.
Assistir o filme, mas não li o livro. Gostei muito do filme!! Na verdade gosto de todos os olhares sobre a Segunda Guerra. Esse é uma tema muito explorado e sempre rende bons filmes.
Beijos!!
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